Os pinguins não se abatem: Mário Gamito

24.03.09

Caro Gonçalo Gamito,

 

Começo mal. Começo em tom paternalista. Nunca te conheci e até hoje não sabia como te chamavas. Sabia que o (Mário) Gamito tinha um filho mas não o nome.

Escrevo este texto para ti porque, um dia, haverás de querer saber mais sobre o teu pai. Este texto será crawlado, criogenado nos backups do Blogs do SAPO, e mais cedo ou mais tarde tropeçarás nele.

 

Conheci o Mário, pessoalmente, em 1998 ou 1999. Recordo-me perfeitamente que foi numa feira, num espaço emprestado que o POLI - Projecto Português de Documentação de Linux - tinha num stand de uma feira informática. O Poli era um projecto, criado em conjunto com o António Cardoso, o Alfredo Palace e outros, cujo objectivo foi criar documentação em português para o Linux. Traduzir HowTo's, criar FAQs, etc...

Nessa feira, encontrei-o com a máquina de fotografar ao pescoço e conversámos sobre o Poli e ideias futuras.

O teu pai voluntariou-se e deu uma ajuda no HTML e documentação, envolvendo-se cada vez mais no projecto.

Por volta de 1999, ficou mesmo à frente do Poli que nesse momento estava em conjunto com uma editora a fazer uma revista de Linux. Se ainda hoje não há espaço para uma revista Linux em Portugal, imagina nessa altura...

De qualquer forma, decorrente da mania de se resolver tudo por email, chateámo-nos todos. Recordo-me dessa altura que o Mário "bateu com a porta" e demitiu-se umas 3 vezes.

 

Parenteses agora para explicar esta coisa de "comunidade", "Linux", "software live" e "software aberto" que fazia parte da vida do teu pai, da minha, e de muitos mais de nós.

O Linux é um sistema operativo que tem como mascote um pinguim. Daí o título deste artigo.

A partir de 1996, começaram a surgir grupos em Portugal associados a um movimento de desenvolvimento colaborativo de software e documentação.

Tal como hoje é percebido nas redes sociais Hi5, Facebook, ... há 10/15 anos já no software se desenvolvia este espirito. Dentro da comunidade, eles eram a tribo da Web (Celso, Bordalo, Melo, João Pedro), do Linux (Neves, eu próprio,...), dos ISPs (Mario Valente, Melo outra vez - Telenet,... ), dos grandes foruns (Coutinho, Gamito,...), dos ambientes Desktop (Duarte, Pedro morais,...), segurança (Paulo Laureano, Rui Machado, venonX,.... ), do IRC / PT Net (Cozinheiro, Nuno Loureiro, nós no ISCTE, Pedro Gonçalves Telepac, ..)...

Nestas tribos, vivemos o desenvolvimento de software, foruns ou documentação colaborativa de forma... hum,... activa. Para não dizer, doentia. Para nós, a disponibilização de mais um site lançado, uma nova versão de software livre com menos bugs ou mais features, é uma questão de vida ou morte. Até aquele momento, damos tudo e depois de estar lançado sentimos ... uma amputação. Amanhã, vou viver o fecho de um master de uma imagem Linux para um deploy de 110.000 PCs e a migração de uma plataforma de anúncios para a V3 e vou (vamos!) vivê-lo como o Carlos da Maia e o Ega sentiram ao apanhar o eléctrico no final d'Os Maias: como se fosse o último e tivesse toda a importância do mundo.

Em relação ao software, sendo aberto, livre, seria fácil dizer que é filantrópico,  porque ambicionamos um mundo melhor.

Também o é. Mas antes de mais, está um ego gigante que move esta comunidade. Achamos que somos os melhores e vamos mudar o mundo. Somos egocêntricos, narcisistas e com graves problemas de comunicação porque teclamos em vez de falarmos. Lost in translation.

Espero que um dia o sucesso do Linux, do qmail e do Apache, do OpenOffice, do Firefox, e o que ele contribuí para um mundo melhor nos possa desculpar um pouco o tempo afastado daqueles que nos são queridos.

 

Em 1999, surgiu o Gildot (ler história) onde se colocavam notícias e se discutia.

O teu pai foi um dos membros mais importantes desta comunidade, criando ódios e amores, através de uma presença constante e vincada.

Daí testemunhos de outras pessoas referirem esse lado: zangado, troll, caciqueiro. Esse é o resultado do mundo de hoje: querem que encaixemos os nossos defeitos em silos herméticos, quando a energia que os potencia é a energia que fortalece as nossas virtudes.

O Gamito ascendeu a editor e participava activamente na mailing list de editores. Contei umas três vezes em que disse que se demitia e voltava à trás. Com a mesma força que via Gigantes em moinhos de vento, também se empenhava em que as coisas resultassem e evoluíssem.

 

Em 2003, o Mário escreveu para a Editora FCA, com o Ricardo Oliveira, um livro sobre software para instalar um servidor de correio electrónico.

Em paralelo, baseado no software siteseed da empresa Mr.Net, criou o Startux. Um site para ajuda a pessoas em Linux mas, simultaneamente, um software.

Na Caixa Mágica ainda hoje utilizamos esse código do Startux na Comunidade da Caixa Mágica.  Ao longo destes anos, 4.400 artigos e 20.000 comentários foram suportados por esse código.

O site Startux teve uma utilização significativa, por pessoas que colocavam questões e outras que respondiam. Acredito que muita gente viu os seus problemas resolvidos através desse site.

 

Posteriormente, sei que o Gamito esteve no Banco Popular em Lisboa a fazer administração de sistemas e, mais tarde, à frente de uma linha de produção de portáteis num dos maiores fabricantes nacionais.

 

Há 5 meses atrás(em Novembro de 2008), não falava com o Mário há uns anos,  contactou-me a pedir para disponibilizar-lhe a placa que tinha feito para uns leilões de Natal em 2003. Na altura convidei-o para ser um dos autores.

Ele perdeu numas mudanças a placa com a mensagem em que te mandava um beijinho e, com a distância, essas coisas tomam outro significado.

Na troca de emails,  escreveu-se:

 

[Paulo] O sucesso é sempre relativo e, para ser sincero, ainda sinto que temos que trabalhar muito.  Sinto que há desafios que ainda não atingimos, como captar a comunidade das pessoas com mais conhecimentos, mas somos teimosos.

[Mário ] A tecnologia é acerca de ir sempre a correr a tentar apanhar o comboio e não ir sentado confortavelmente dentro dele.

Ou seja, o tal eléctrico.

 

Muitas coisas me escaparam, certamente, e outras pessoas completarão esta imagem imperfeita.

Mas uma questão penso ser de elementar justiça.

Errámos muito, muito mesmo, a construir o software que hoje é a principal base da Internet e de aplicações de produtividade em português. Apostámos em projectos que morreram e hoje ninguém  fala, discutimos entre nós, criámos ódios, gastámos energia em iniciativas que hoje ninguém conhece.

Mas o Gamito foi parte da comunidade das workshops, dos foruns, da documentação, do software que ajudou e motivou tantos que hoje fazem parte da força criadora deste país. Ele escreveu um livro, teve um filho e, provavelmente, plantou uma árvore.

O software envelhece e é desactualizado mas os seus conceitos  são perpetuados nos seus concorrentes e nos que lhe seguem.

Os foruns fecham ou ficam às moscas mas as dicussões e a formação de uma cultura fica nos que cá estão.

A documentação fica desactualizada mas o conhecimento é para sempre.

 

No nosso interior, acreditamos que somos eternos. Perpétuos. É uma pura ilusão e estamos nesta corda bamba da vida numa situação frágil em que um comboio, um acidente de automóvel ou ataque cardíaco nos faz passar para o outro lado.

 

E nesse momento, acho que só duas coisas contam:

 

A espuma dos dias: os risos de uma piada ao almoço, um abraço amigo, um sorriso comprometido com a nossa cara metade, ver os nossos filhos a superarem-nos.

 

E o que cá deixamos, o que transmitimos aos outros, o que criamos.

 

Quando soube do desaparecimento do teu pai, só me consegui, por oposição  lembrar-me do livro "Os cavalos também se abatem". Neste caso, os pinguins não se abatem quando viveram este mundo como acima o descrevi.

O que posso dizer sobre o teu pai, com os seus defeitos e virtudes, é o que espero que um dia os meus filhos possam ouvir sobre mim: foi honesto, lutou pelo que acreditou e deixou marcas nos que cá ficaram.

E que belo epitáfio seria... "Os pinguins não se abatem".

 

 

 

 

publicado por Tintim às 23:39editado por Fábio Teixeira em 12/10/2010 às 11:04

Pinguins...em grupo

23.02.09

Um anúncio a viajar em autocarros ou a Linux/KDE/Gnome/OpenOffice Vs  windows7?

 

 

publicado por Tintim às 01:48editado por Fábio Teixeira em 12/10/2010 às 11:05

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